O estranho fruto norte-americano em três actos culturais

ACTO I. Billie Holiday e a interpretação de “Strange Fruit”

Billie Holiday editou “Strange Fruit” em 1939. É um tema desconcertante. Retrata de forma crua um linchamento, mas, dando voz a um, representa muitos mais. Como se escreve neste artigo, do The Guardian, pode não ter sido a primeira canção de protesto e resistência do povo afro-americano, mas foi a primeira com uma mensagem política explícita no circuito cultural e do entretenimento. 

Billie Holiday foi uma mulher bisexual sem pruridos. Esteve presa um ano mas foi perseguida pelo governo americano durante vários. Na acusação, alegavam o seu uso de drogas mas isso era, na verdade, uma máscara para persegui-la por insistir em cantar “Strange Fruit” e desafiar o sistema permanentemente. Para aprofundar a sua história recomenda-se o documentário “Billie” e este artigo

“Strange Fruit” é uma canção fundamental. Acima podem encontrar um vídeo da sua interpretação e, abaixo, o poema na íntegra. 

Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh

Here is a fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the tree to drop
Here is a strange and bitter crop

 

“Strange Fruit”, poema de Abel Meeropol cantado por Billie Holiday.

ACTO II. Igbo Landing (1803) em “Love Drought” (2016) de Beyoncé

1.Still do vídeo de Love Drought
2. Ilustração de Donovan Nelson do suicídio em massa de Igbo Landing

Em 1803 um navio transportava escravizados da África Ocidental para os EUA, perto da costa da Georgia, os passageiros tomaram o controlo do navio, recusando atracar e entregar-se à escravatura. Atiraram-se ao mar, num suícido em massa que se tornou numa história mítica não só para o povo afro-americano como para toda a diáspora negra. Ficou conhecido como Igbo Landing. É uma história imortalizada pela tradição oral, embebendo-se na cultura popular e chegando aos nossos dias. Beyoncé presta reverência ao acontecimento no vídeo de “Love Drought”Este artigo traça um perfil social e cultural deste acontecimento, é uma reflexão interessante. Para compreender melhor o paralelo com “Love Drought”, que faz parte de Lemonade, recomenda-se episódio do podcast Dissect.

ACTO III. “I Am Not Your Negro”

documentário de Raoul Peck, de 2016, foi realizado a partir de textos de James Baldwin, para um livro que não acabou, intercalado com entrevistas do autor. Estimula-nos a pensar sobre o racismo mas, muito além disso, sobre a humanidade.