Madonna, Beyoncé, Amália e democracia cultural: eis o ADN de NUCLEAR

NUCLEAR é um podcast sobre energia cultural que nasce do prazer que reside na partilha da cultura. São, sobretudo, fragmentos da cultura pop no sentido lato. Quando, no primeiro episódio, se assume “Vogue” como manifesto é porque se tornou num movimento cultural. Madonna, no topo da carreira, tomou a cultura suburbana do ballroom, onde a comunidade LGBT se expressava com liberdade e sem complexos, num acto de resistência perante a epidemia da SIDA, apresentando-a ao mercado mainstream. “Vogue” foi editado em 1990 mas continua a ser um confronto artístico com os preconceitos da sociedade e da opinião pública. 

Em 2018, Beyoncé encabeçou Coachella criando uma obra de celebração da cultura negra. No alinhamento, depois de “Freedom” e antes de “Formation”, cantou “Lift Every Voice And Sing”. Horas depois, a imprensa recuperava a história do poema, escrito por James Weldon Johnson em 1900, e reclamado pela população afro-americana como “black national anthem” – um cântico representativo da libertação de um povo. “Lift Every Voice And Sing” regressou, assim, à discussão pública. Beyoncé não tem, maioritariamente, um público erudito, que conheça expressões culturais com mais de 100 anos mas, com este momento, conseguiu dar a conhecer a milhares de pessoas, de diferentes países e contextos sociais, a importância da música que se torna na voz de um povo. No hino de um povo. 

Isto é democracia cultural. É o que a pop tem de melhor: quando é capaz de fazer-nos compreender melhor o mundo em que vivemos. Também é uma pop rara – mas é aquela que NUCLEAR procura incluir. 

No ADN do podcast teremos muito do que é a cultura negra e mergulhamos nela através da música: com Billie Holiday, Nina Simone, Dino D’Santiago, Liniker, Chloe x Halle, Hamilton ou Prince. Outras expressões terão lugar para pensar a cultura, como Maya Angelou, que já nos recitou poesia num episódio em que a deficiência esteve em foco, mas também a certeza que, no futuro, teremos palavras de James Baldwin, Toni Morrison e Ibram X. Kendi. 

É importante que a nossa geração ouça, pense e tente compreender Amália. Tentar é a expressão mais correcta porque Amália foi maior do que qualquer um de nós consegue ver. Diria que a melhor das tentativas, além de ouvi-la, será ler a biografia de Miguel Carvalho, “Amália: Ditadura e Revolução”, onde é traçado um perfil social, cultural e político de uma figura maior que o seu tempo. Uma mulher que nunca teve filhos, que se divorciou nos anos 40, fez digressões patrocinadas pelo Estado Novo e editou um fado sobre a prisão de Álvaro Cunhal. Entregou dinheiro às famílias de presos políticos e recebia em casa opositores do regime. Não teremos Amália em todos os episódios mas o seu legado é omnipresente e o fado será um género privilegiado em NUCLEAR. Existe também espaço para a brilhante nova vaga de música produzida em Portugal, para a música indie e electrónica. 

Em cada edição do podcast, ouve-se uma selecção de canções contextualizadas no seu impacto histórico e na sua contemporaneidade. Existem ainda pensamentos sobre os filmes, as séries, os livros e os artigos do meu dia-a-dia que, de certo modo, lançam o repto aos episódios. 

Se NUCLEAR fosse descrito apenas com um género musical seria o disco, pela melancolia que vive mascarada de celebração – um género socialmente complexo, redentor, próximo da pop, e onde se ouvem vozes como a de Donna Summer, Sylvester, Jessie Ware ou Róisín Murphy. É através do disco que NUCLEAR nos dá espaço para dançar e para chorar, tomando abrigo na liberdade da cultura e acreditando nela como expressão nuclear da humanidade.  

Espero que gostem mas, sobretudo, espero que dancem!

Tiago Fortuna