“BLACK EFFECT” por Sérgio Bronze

Ouvir episódio #15 aqui.

Voltemos a 2004. Findados os tempos letivos, eis que o Sérgio da altura se inicia no mundo da MTV. Os dias eram pasmacentos, e sentado no sofá com as cortinas corridas a fugir do calor de agosto, surge Crazy in Love no ecrã. Não se esquece a primeira vez em que surge o olhar penetrante de Beyoncé logo nos primeiros segundos do vídeo. Não é só o talento vocal ou a capacidade de dança que atraem, havia já na altura um prenúncio de que estava a nascer uma das maiores estrelas da música pop. Todos sabemos que alguns amores nascem por motivos que nos são alheios, mas o meu amor pela Beyoncé tem um substrato identificável e concreto, que vos tentarei explicar.

A música pop pode ser entendida de forma leviana e hedonista, mas para mim tem um caráter democrático, interventivo e instigador da mudança. Já 2013 estava prestes a terminar, e eis que Beyoncé lança um álbum visual, homónimo de nome, onde encontramos Flawless, hino feminista, em linha com Run the World (Girls) de 2011 e Independent Women de 1999, e que é interrompido a meio para se ouvir parte de uma conferência proferida por Chimamanda Ngozi Adichie, a nigeriana que escreveu o ensaio “We Should All Be Feminists”. Num século em que as mulheres ganham cada vez mais voz – ainda insuficiente – na luta pela igualdade dos seus direitos, este foi um momento musical decisivo no espetar o assunto na imprensa, nos ecrãs e nos nossos ouvidos. Beyoncé apresenta a característica de querer sublinhar a importância da diversidade como fator de enriquecimento social e cultural e diz em 2020 no Commencement Speech a convite de Obama: “To all those who feel different, if you’re a part of a group that’s called other, a group that does not get the chance to be center stage, build your own stage and make them see you. Your queerness is beautiful. Your blackness is beautiful. Your compassion, your understanding, your fight for people who may be different from you is beautiful.”.

Quem me conhece e sabe o que me move, sabe que tenho uma relação vincada com a cultura afro-americana, que em medida foi Beyoncé que a fomentou. As lágrimas caem-me quando outro nome se acrescenta à lista onde encontramos os de George Floyd, Ahmaud Arbery e Breonna Taylor. Celebro o Black History Month com o fervor de quem está nas ruas de Nova Orleães. Ler Toni Morrison é comparado a ler Albert Camus ou Herman Hesse. A escolha musical óbvia passa por Nina Simone ou por Aretha Franklin. O passado da cultura afro-americana é sofrido, com perda de capital humano, com luta democrática e menos democrática e com cruzamento direto com várias dimensões artísticas – literatura, arquitetura e cinema –  e é isso que o torna tão fascinante. Ainda no mesmo discurso acima citado diz: “One of the main purposes of my art for many years has been dedicated to showing the beauty of black people to the world, our history, our profundity, and the value of black lives.”. Beyoncé é agressiva e subtil nesta luta e tanto usa figurinos de black panthers em frente a milhões de pessoas que assistem ao Superbowl, como grava o vídeo de Apeshit num dos maiores templos da cultura ocidental que é o Louvre, insinuando-se em frente da“A Coroação de Napoleão” de Jacques-Louis David  ou em frente à “Vitória de Samotrácia”, elementos chave e exemplificativos da supremacia branca em pleno século XXI.

A meio da faculdade, leia-se 2016, é lançado Lemonade, uma narrativa que passa pelos interstícios da apatia, do confronto, da dor, mas que evolui para o perdão e para a redenção. É um alerta para a forma como olhamos as decisões amorosas dos outros, e que nos faz pensar em como projetamos aquilo que definimos como certo e errado na vida dos que nos rodeiam. O filme de 65 minutos é o exemplo perfeito do talento que lhe reconheço, na fotografia, na música, na coreografia e na atitude, que migra no espetro da vulnerabilidade até ao empoderamento da mulher negra, que como Malcom X disse, é a pessoa mais desrespeitada na América. 

Habituada a ser a primeira mulher negra a subir a vários palcos, é em 2018 que sobe ao do Coachella com um figurino que remete a Nefertiti, a rainha que passou a ser venerada como deusa e cujo busto jaz no Neues Museum em Berlim. Numa sequência nada inocente e com deliberado interesse em elevar a cultura de que faz parte, canta Freedom, Lift Every Voice and Sing e Formation, plenamente consciente de que a transmissão chegaria em direto a milhões de casas. E este é o exemplo perfeito do papel civilizacional da cultura pop, como legado do que Madonna iniciou no último quartel do século anterior.

É este desassossego e confronto de ideias que procuro na minha vida: na ciência a que me dedico e na arte que consumo. Mrs Carter, como a própria se auto-intitula, tem sido companhia neste processo, e vê-la crescer nos últimos 17 anos tem sido motivo para crescer também. Como peça central no panorama musical, é já nos dias de hoje transgeracional e símbolo de como o espírito de sacrifício e a não cedência às dúvidas e aos receios é a receita para o sucesso. Neste caminho ascético tudo foi mais vivido por ter o meu melhor amigo a partilhar esta devoção, e a ele, Tiago Fortuna, deixo a primeira estrofe de Before I Let Go do especial Homecoming da Netflix, lançado em 2019: 

You make me happy
This you can bet, yeah
It’s clear right beside me, yeah (come on, come on)
And I won’t forget (come on, come on)


Foto: beyonce.com

Sérgio Bronze: Há 26 anos de volta dos livros e dos cds, dividindo o seu tempo entre a medicina, os amigos e as várias ramificações da cultura. Tio babado e apreciador de vinho a tempo inteiro. Beyoncé é para uns guilty pleasure, para ele a fonte de devoção. Interno de Gastrenterologia no Hospital Santa Maria, onde se sente realizado a ouvir os doentes, fazendo desse o principal momento diagnóstico. A música é desde cedo vista como evasão, sendo frequentador assíduo da sua concretização ao vivo.