“Colibris que mudam o mundo” por Maria Vlachou

Ouvir episódio #17 aqui.

O Tiago pediu-nos para escrevermos sobre um projecto que tenha mudado a nossa vida, que a torne melhor todos os dias. Com um pedido destes, e num primeiro momento, ficamos perdidos. Parece que não conseguimos pensar em algo em concreto. Já vimos, lemos e ouvimos tanta coisa, como escolher “aquela” uma?

O pedido do Tiago torna-se depois mais específico: Um texto onde façamos uma reflexão sobre o impacto que o projecto escolhido tem na nossa vida, mas também sobre a importância para a comunidade, para a vida em sociedade. 

Então, o meu pensamento já começa a focar-se em algo: uma visita, há 10 anos, ao National Holocaust Memorial Museum em Washington.

Perante os diversos desafios que as nossas sociedades enfrentam, desafios que polarizam e que provocam confrontos e desconforto, muitas vezes sentimo-nos demasiado pequenos, sem qualquer poder, desamparados e sem esperança. Por esta razão, muitos somos levados a não agir (ou reagir) de todo. Para quê? Que diferença vai fazer? O que vai resolver? 

Quero, por isso, escrever sobre o meu primeiro encontro com esta noção de que cada um de nós, à sua escala, tem algo a fazer neste mundo. Algo que talvez torne o mundo melhor, não só para nós próprios como também para outras pessoas. Na minha primeira visita em 2011 ao Holocaust Memorial Museum em Washington lembro-me de sentir o peso da tristeza e incredulidade face à barbárie. Uma história já conhecida, contada de formas diversas, e que nos atinge sempre como se fosse a primeira vez. Uma parte específica na exposição, chamada “Some were neighbors” (Alguns eram vizinhos), examina as escolhas individuais de agir (ou de não agir): como o medo, a indiferença, o anti-semitismo e os interesses pessoais influenciam essas escolhas; e como algumas pessoas não cedem, porque há sempre uma alternativa e porque essas pessoas são capazes de preservar a sua humanidade. 

No final da visita, existe uma secção chamada “Prevenção de genocídio”. É ali que nos apercebemos daquilo que é o papel de qualquer um de nós face à monstruosidade. O pouco, o mínimo, que cada um pode fazer é estar informado e, depois, informar outras pessoas, passar a palavra. Não é propriamente um acto heróico, mas é o pouco que cada um pode e deve fazer. Assim, as coisas fazem sentido, ganhamos coragem, ficamos conscientes do nosso poder.

Lendo recentemente o livro “Freedom is a constant struggle”, de Angela Davies, logo nas primeiras páginas encontrei este pensamento: “É essencial resistir à apresentação da história como o feito de indivíduos heróicos para que as pessoas hoje possam reconhecer o seu potencial como parte de uma comunidade de luta em crescimento.”

Pessoas como qualquer um de nós, que têm o poder de fazer algo, mesmo que pequeno, mas que possa contribuir para algo maior.E porque uma referência nunca vem sem uma segunda, e ainda uma terceira, nada como ver o vídeo da falecida activista queniana Wangari Maathai I will be a hummingbird. Todos podemos sê-lo.

Ilustração: Direitos Reservados


Maria Vlachou é membro fundador e directora executiva da Acesso Cultura. E ainda, autora do blog Musing on Culture, onde imagina um mundo melhor, por via da cultura.