“À procura da visibilidade” por Bernardo Gonçalves

Ouvir episódio #18 aqui.

Para e ao Tiago

A cultura leva-nos por caminhos que nós próprios desconhecemos. Estes, apesar de algum tipo de orientação, devem ser livres e devemos estar disponíveis para onde eles nos possam levar. O que vos irei brevemente contar é apenas um desses caminhos, de tantos que eu próprio já vivi e que outros certamente viveram, vivem e viverão. Começo por fazer um disclaimer, fazendo já uso, pois então, dos habituais clichés: este é um texto pessoal que reflecte um ponto de vista fortemente emocional, repleto de demasiadas referências que, na sua grande maioria, não conseguirei conter. Muitas das referências aqui apresentadas poderão ser sujeitas a outras críticas de diversas formas, igualmente válidas, e eu próprio poderei ter diversos pontos de vista acerca delas mesmas. Contudo, nem tudo isso será explorado aqui.

Não me lembro exactamente de quando me deparei com As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower no original). Creio que terá sido um daqueles filmes que se apanham na televisão ao sábado à tarde depois de almoço. Mas, tal como disse, não consigo precisar. Nessa altura, já frequentava a faculdade, já tentava caminhar fora do ninho e explorar novas coisas em mim ou, pelo menos, começava a olhar para elas e elas já olhavam para mim de diversos sítios e em diversos momentos (ou talvez apenas já estivesse mais atento, predisposto ou disponível para elas). Sofria, creio que como muitos, de uma espécie de adolescência tardia ou de um prolongamento da adolescência, sem dúvida por alguma falta de incapacidade, liberdade ou oportunidade de experienciar certas situações ou vivências.

O filme insere-se naquele género apelidado de coming-of-age, em que jovens adolescentes (entre os quais se contam o Ezra Miller e a Emma Watson!) começam a descobrir-se, a descobrir os seus corpos e o Outro, e são confrontados com o amor, a dor, a depressão, a diferença. Procuram o seu espaço e conhecer a sua própria pele, procurando o seu próprio modo de expressão e de visibilidade, através dos seus próprios olhos, mas também através dos olhos dos outros e da sociedade. Foi neste filme que ouvi pela primeira vez The Smiths, uma vez que a música Asleep faz parte da incrível banda sonora seleccionada para o filme. Terrivelmente depressiva e assustadoramente bela. A paixão por esse grupo britânico ganhou raízes e sinto que também eles me cantam a mim e à minha vida, por vezes.

Também nesse filme me deparei com aquilo que vim a descobrir ser o fenómeno The Rocky Horror Picture Show, filme musical de 1975 – o filme mostra o culto que se gerou em torno deste musical retratando uma das muitas sessões da meia-noite em que os espectadores se vestiam de personagens e interpretavam músicas e cenas do filme enquanto este era projectado no grande ecrã. A minha primeira visualização de Rocky Horror foi também ela uma revelação, tanto que acabei por comprar o DVD apesar de não ter como o visionar, e isto não apenas por eu ser um geek de musicais (já agora, Glee tem um episódio inteiramente dedicado ao filme e às suas músicas). De forma resumida, o filme conta a história do Dr. Frank ‘N Furter, “a sweet transvestite”, que está a criar um homem chamado Rocky no seu laboratório. No fim, é desvendado que Frank não é deste planeta, mas sim do planeta “Transsexual” da galáxia “Transylvania”. Frank representa a busca pela expressão da individualidade e visibilidade próprias de cada um. Neste caso, mesmo quando se é de outro planeta.

Sharon Needles, a vencedora da quarta temporada do hit reality show RuPaul’s Drag Race, apresentou uma sessão de Rocky Horror em 2015. Por entre os já característicos gracejos, sarcasmos e ironias de Sharon, esta partilha com a audiência a sua própria experiência de crescer no Iowa, nos Estados Unidos, e de, aos quinze anos, se juntar todas as sextas-feiras com o que chama de “fellow freaks” para assistir a Rocky Horror. A quarta temporada de Drag Race, originalmente transmitida em 2012, foi a primeira que vi, há coisa de um ou dois anos. Desde então já praticamente vi todas as seguintes até ao momento. Apesar de não deixar de ser um reality show, com Drag Race a desconstrução dos papéis de género, a expressão artística individual sob a forma de drag e o próprio direito à trash culture ganhou um importante espaço mainstream. Um caminho em que também Rocky Horror terá tido o seu papel.

Aquilo que hoje vemos como a expressão artística drag tem parte da sua origem onde o próprio vogue, estrondosamente popularizado por Madonna em 1990, nasceu: nos drag balls em Nova Iorque. Também em 1990 o documentário Paris is Burning é lançado, sendo apresentado no Festival de Sundance no ano seguinte, onde ganha o Grande Prémio do Júri. O documentário é um registo de valor inigualável retratando a Época Dourada dos drag balls, explorando temas como a cor, a classe, o género e a sexualidade. Mais recentemente a série Pose apresenta-se como um retrato fiel desses anos e dessa realidade. Tudo isto é acerca de sobrevivência, de amor e dor, e de uma luta pelo direito a sonhar e a ser visível. A cultura dos balls apresenta-se como um dos melhores exemplos de desconstrução não só de género e de papéis e classes sociais como também da própria cultura mainstream, ao mesmo tempo brincando com ela, ambicionando a ela, copiando-a, para, logo a seguir, fugir dela.

Muito mais haveria a dizer sobre tudo aquilo que partilhei convosco, eu próprio teria muito mais a dizer, a questionar, a discutir. Mas o que há de comum em tudo isto? A procura de um caminho, da visibilidade na diferença, e não apenas numa igualdade ilusória. A procura de espaços e da liberdade e oportunidade para sonhar, experienciar, errar e para a expressão individual e colectiva.

Foto: Still “The Picture Horror Show”


Bernardo Gonçalves tem 26 anos e é natural da cidade mais alta de Portugal, a Guarda. Veio para Lisboa com 17 anos estudar Engenharia Física Tecnológica, no Instituto Superior Técnico, onde neste momento dá aulas e é estudante de Doutoramento. A partir da adolescência, acuriosidade pela cultura intensificou-se e deu-se conta de que, tal como escreveu Álvaro de Campos, “a Vénus de Milo é tão bela quanto o Binómio de Newton”, algo que o acompanhará para o resto da vida.