“Duas loiras e uma escova de cabelo” por Ana Ventura

Ouvir episódio #21 aqui.

Se há figura completamente transversal na minha vida – no meu crescimento, na minha descoberta na música, no meu vislumbre existencial –, essa figura é Madonna. Aliás, é precisamente por isso que, quando questionada sobre música, refiro sempre que, para responder, tenho que ir lá atrás, às primeiras memórias: e essas são, lá está, com Madonna. 

Madonna é muito mais do que a “Rainha da Pop”. É muito mais do que os álbuns que editou, as digressões que levou aos quatro cantos do mundo ou os singles que encaminhou até ao topo das tabelas. Quando eu crescesse, queria ser como Madonna (por alguma razão, um dia, já adulta, entrei num cabeleireiro, foto da fase “Confessions on a Dance Floor” em riste e um pedido muito claro: “quero ficar loira como ela!”. Se calhar, há ímpetos que a idade nunca apaga).

Mas voltemos ao início, às tais primeiras memórias que tenho de Madonna, quando eu ainda estava a descobrir o que era a música mas ela já se passeava numa gôndola, pelos canais de Veneza, a anunciar que tinha sido “touched for the very first time, like a virgin”. Eu nem 10 anos tinha – claro que não sabia o que era ser “tocada” e muito menos imaginava o que era ser “virgem” – mas havia algo ali, naquela figura explícita e lânguida, que me impedia de ficar indiferente. Por isso, quando “True Blue” entra na minha casa (aliás, quando é um dos primeiros discos que peço aos meus pais), foram longas as horas que passei em frente ao espelho, escova na mão qual microfone, a entoar “La Isla Bonita” ou “Papa Don’t Preach” (mais uma vez, claro que a ideia de uma gravidez adolescente era algo que não compreendia mas os ensinamentos ficavam). Estes são apenas dois exemplos que provam a importância que Madonna teve na minha vida e aquilo que me ensinou.

Don’t go for second best”, “express yourself, don’t repress yourself”, “you’re a superstar, that’s what you are”, “happiness lies in your own hand”. Lembram-se quando disse que Madonna é muito mais do que a “Rainha da Pop”? Frases como estas, espraiadas pelas suas canções, mostram isso mesmo: que a pop pode ser o veículo perfeito para uma mensagem de poder, de determinação, de conquista. Até Madonna, nunca a mulher foi vista de tal forma independente (mesmo que, depois, as suas travessias pessoais provassem que ela é tão vulnerável quanto todas nós, de coração partido, de relógio biológico aos berros, de total devoção na sua bizarra incursão pela sociedade britânica). Até Madonna, não se falava de sexo sem pudor, como se a sexualidade fosse um fruto podre do qual não devíamos provar. Até Madonna, a igualdade podia ser um objectivo mas havia uns mais iguais do que outros. Até Madonna, uma mulher podia ambicionar fazer a diferença mas não podia falar demasiado alto, ser assertiva ou opinar demais. Até Madonna, nós, mulheres, nascíamos, crescíamos, vivíamos e morríamos dentro dos mesmos parâmetros imutáveis, imunes a qualquer mudança ou reinvenção. Madonna permitiu-nos isso tudo.

O mais curioso, na verdade, é que, olhando hoje para Madonna, compreendemos que esta mulher ímpar, visionária, destemida, podia ser qualquer uma de nós: a que leva os filhos à escola, que brinca com eles, que se sente só – e será por isso que ela é uma verdadeira “rainha”. Porque todas nós o podemos ser: por sermos filhas, não temos que negar a nossa independência; por sermos mães, não temos que anular a nossa sensualidade; por sermos amigas, não temos que esconder a nossa ambição; por sermos profissionais, não temos que fingir que não queremos mais, ir mais longe, ir mais além.

A marca que Madonna deixou na música – e na sua indústria – dificilmente será equiparada por outra figura (por mais distintas herdeiras que a pop tenha actualmente) e a forma como Madonna ousou influir nos movimentos culturais e sociais – nomeadamente na sua relação com a comunidade LGBTQ – foi percursora. Porém, a maior chancela de Madonna é aquela que ela deixou em cada uma de nós, individualmente. Ao tocar-nos, o seu toque tornou-se universal, ultrapassando quaisquer credos, raças ou nações.

Não, hoje, já não me coloco em frente ao espelho de escova do cabelo na mão mas carrego em mim tudo aquilo que aprendi com Madonna, os ensinamentos que (não tenho quaisquer dúvidas) me tornaram um ser humano mais tolerante, uma mulher mais forte e uma pessoa mais objectiva. E sim, o “Confessions on a Dance Floor” já tem uns aninhos mas eu continuo loura.

Foto: Direitos Reservados



Falar de Ana Ventura é falar de música. Passou pelo jornal e revista BLITZ, é presença assídua nos canais da SIC e criou o M de Música, antes de se lançar, como autora, à edição dos dois volumes da autobiografia dos Xutos & Pontapés e, mais recentemente, a Ao Vivo, a biografia de Magazino. Mas falar de música também é falar de Ana Ventura, leitora voraz de livros, consumidora frenética de documentários e dependente (assumida) de concertos.