“Björk – Miss Utopias” por Dora Santos Silva

Ouvir episódio #23 aqui.

Há uma idade certa para conhecer os artistas que vão influenciar a nossa forma de estar no mundo. Se surgem demasiado cedo, corremos o risco de não ter maturidade para os aceitar. Demasiado tarde, já não temos aquela capacidade de nos encantarmos por eles – de forma exagerada, apaixonada, fervorosa, esmagadora, etérea – tão própria da adolescência e dos vinte anos, uma altura em que ainda absorvemos tudo como uma esponja, sem sermos esmagados pelas circunstâncias terrenas do quotidiano. Acho mesmo que quem não desenvolve esta capacidade nesses anos – no fundo, de sonhar e de criar, independentemente do que nos prende ao chão – não conseguirá fazê-lo mais tarde (vi isso em muitos dos meus amigos).

A Björk – aquela mulher tão deslumbrante quanto enigmática que só poderia ser de um país como a Islândia e ter um apelido tão difícil de dizer como Guðmundsdóttir  – apareceu na minha vida em 1998. Era uma estudante de licenciatura em Ciências da Comunicação na NOVA FCSH que conciliava com um part-time num instituto de investigação e formação em língua portuguesa. Foi num desses dias de trabalho que a minha diretora, que tinha talvez mais seis ou sete anos do que eu, me sugeriu ouvir aquela voz que iria perseguir-me para sempre: lembro-me perfeitamente de olhar para o CD que tinha na capa um rosto exótico a fitar-me, olhar para a pessoa que estava à minha frente e pensar o quão parecidas eram as duas. Além dessa coincidência estranha, houve outra que me levou a ouvir o CD com o coração. A Björk tinha acabado de lançar há uns meses o álbum Homogenic (1997) e já me tinha passado pelo olhar aquela capa de Alexander McQueen em que ela está vestida de gueixa, com lentes de contacto estranhas e 10 quilos de cabelo em cima. Mas o CD que eu tinha nas mãos não era esse: era Debut (1993), o primeiro, onde aparecia com uma camisola de lã, ar descontraído e muito vulnerável.  Aquela discrepância intrigou-me, comecei a ouvir o álbum e a partir daí tudo o que tinha a sua voz, num misto de consumo compulsivo.  

Em Homogenic, a artista não só antecipa uma transformação profundamente estética, que viria a caracterizar toda a sua postura na carreira, como também musical, onde começa a ir além do pop e da música eletrónica e a fazer arranjos sonoros experimentais cada vez mais complexos e intrigantes. O produtor britânico Mark Bell teve um papel essencial nestes argumentos musicais e trabalhou com a Björk também em Selmasongs (2000), Medúlla (2004), Drawing Restraint 9 (2005), Volta (2006) e Biophilia (2011), ano em que faleceu por complicações pós-cirúrgicas.  

O que me atraiu na Björk quando eu tinha 20 anos e ela 33 foi a diferença. Sempre gostei de quem se destaca da monotonia, da mesmice (com excepção dos Modern Talking e dos New Kids on The Block, mas aí era uma adolescente precoce de nove anos). Ser diferente não é ser elitista nem assumir que algo é bom só porque é independente. Era diferente para mim porque conseguia dizer-me algo que todos os outros milhares de músicos da sua geração não conseguiam e pela pessoa que ela era – para mim, a obra e o artista sempre foram um só, não só na música, mas em todas as outras expressões artísticas. Além disso, introduziu-me a muitas outras bandas da Islândia, como Sigur Rós, levou-me a testar os meus próprios limites estéticos (e da paciência), como em Drawing Restraint 9, ou a entregar-me completamente ao que ela ofereceu, sem questionar, principalmente nos últimos álbuns, algo que só é possível quando já se tem uma relação muito forte com um artista. 

O que me atrai na Björk, agora que eu tenho 43 anos e ela 55, é a complexidade e ao mesmo tempo a capacidade de voltar às utopias sempre que se quer (eu e ela). Eu cresci, mas ela também (por vezes, esquecemo-nos de que os artistas também crescem). A sua mensagem ficou mais carregada, ao mesmo tempo distante, como em Vulnicura (2015) quando se separou de Matthew Barney; transformou-se e renasceu, em Utopia (2017). Mesmo assim, acho que é nos seus primeiros álbuns que conseguimos alcançar o cenário sonoro perfeito para nos recolhermos nas nossas utopias e nos deixarmos lá estar durante o tempo que for possível. De preferência, em looping


Dora Santos Silva é Professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa na licenciatura em Ciências da Comunicação, no mestrado em Jornalismo e na pós-graduação em Comunicação de Cultura e Indústrias Criativas, que coordena. Já viu a Björk ao vivo, mas ainda está à espera daquele convite para um kaffi (“café”, em islandês) que a artista lhe prometeu na casa dela. Utopia?