“Uma dedicatória a Wittgenstein” por Pedro Ruela Berga

Ouvir episódio #25 aqui.

Quando o Tiago me convidou para escrever este texto sobre uma figura ou uma obra que tivesse sido transformadora para mim houve logo um nome que me veio à cabeça: Ludwig Wittgenstein. Ainda procurei alternativas, mas nenhuma opção fazia tanto sentido quanto este autor que tornou clara para mim esta consciência de que quer a arte, quer a filosofia, não mudam nada na realidade dos factos e, ainda assim, conseguem mudar um mundo inteiro.

No princípio era o místico

Saltar de pára-quedas, chegar ao cimo de uma montanha, um horizonte, um mergulho, um sorriso, uma palavra. Estar vivo é estar a braços com uma dimensão assoberbadora. A sua tentativa de descrição leva a um êxtase, um empurrão do diafragma que não solta palavra nenhuma. E ainda assim, de alguma forma, todos sabemos do que se fala.

Há, contudo, uma espécie de impulso para a dominância, uma vontade de controlo da realidade, que se manifesta de diversas maneiras. Na ciência, na política, há um projecto constante de explicação, previsão e de mutação da natureza. Esse impulso invade-nos e torna-se a nossa forma habitual de pensar – a racionalidade, a justificação, o discurso fundamentado.

Quase que conseguimos acreditar que esse é o modo correcto de estar. Agarramo-nos a ele com unhas e dentes. Tudo faz sentido, excepto quando não faz. Há experiências que cortam pela raiz estes fundamentos, que levam tudo consigo como um maremoto. Para o bem e para o mal são esses eventos que nos colocam em contacto com o absolutamente não-fundamentado.

Pode acontecer com o microscópico, com o macroscópico, o maravilhoso e o terrível. A morte de um ente querido, desastres naturais, o perigo iminente. Na perfeita injustificabilidade da existência pode estar um contacto aparentemente directo com tudo o que subjaz à realidade e que não é, de todo, exprimível por palavras.

Wittgenstein participou na primeira grande guerra. Obteve várias medalhas pela coragem demonstrada. Ao mesmo tempo, escrevia os diários (Cadernos 1914-1916) onde estão presentes várias ideias que vieram a ser aproveitadas para o Tratado Lógico-Filosófico, a única obra que viria a ser publicada em vida.

Este livro, à primeira vista, versa principalmente sobre lógica e linguística, nada de aparentemente místico ou transcendental a não ser um passo ou outro. Contudo, se lermos os seus diários, conseguimos perceber o contexto em que nascem algumas das suas proposições. E torna-se difícil desassociar por completo a experiência da guerra da génese do Tractatus. Na realidade, o que antes parecia profundamente lógico, torna-se agora, manifestamente místico:

“Na realidade, ela [a matéria] não lhe é estranha a si [von Ficker], pois o sentido do livro é um [sentido] Ético. Houve uma altura em que eu quis incluir no prólogo uma frase que, de facto, não está lá, mas que agora lhe escrevo, porque constituirá para si, talvez, uma chave: o que eu quis escrever é que a minha obra consta de duas partes: daquela que aqui se apresenta e de tudo aquilo que não escrevi. E é precisamente esta segunda parte a Importante.”

Talvez Wittgenstein não tenha sido o primeiro a detectar a não-fundamentação da realidade, a desadequação total da língua ao referente que queremos indicar. A arte é um constante sintoma desse “correr contra as paredes da nossa jaula”, de uma tentativa de comunicação desesperada do inefável. Mas pela forma como o faz, e pelos conteúdos para que aponta, continua, até hoje, a ser uma referência para mim.


Pedro Ruela Berga frequentou uma licenciatura em filosofia na FCSH e está neste momento a tirar o mestrado. Procurou estabelecer pontos de contato com o estudo no domínio da comunicação e das organizações, área em que tirou uma pós-graduação, e trabalhou como assessor de imprensa (em particular na área da música e da literatura). Procura constantemente colocar em prática, relacionar e expandir os seus conhecimentos filosóficos, não só no âmbito profissional, como na produção de conteúdo artístico (cinema, B.D., música e fotografia). Recentemente ganhou coragem e começou a tornar as suas canções públicas através do projecto degelo.